Na Festa da Anunciação da Bem-aventurada Virgem Maria - 25 de março
PRIMEIRO SERMÃO
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Exposição sobre o Salmo 84: "Para que habite a glória em nossa terra, a misericórdia e a verdade mutuamente vieram a encontrar-se, e deram o beijo a justiça e a paz"
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O fundamento da glória interior: O testemunho da consciência iluminada pelo Espírito Santo
- Estabelece-se que a matéria do regozijo cristão é o testemunho da própria consciência, não um testemunho falso como o do Fariseu, mas aquele que o espírito de Deus dá ao nosso espírito.
- Este testemunho divino consiste em três convicções fundamentais: a) o perdão dos pecados só se obtém pela misericórdia de Deus; b) nenhuma boa obra pode ser realizada sem o auxílio divino; c) a vida eterna não se alcança por méritos próprios, mas é concedida graciosamente por Deus.
- Argumenta-se que a natureza humana, criada do nada e corrompida pelo pecado, tende constantemente para o nada do pecado se deixada a si mesma, sendo incapaz de se purificar, fazer o bem verdadeiro ou merecer a glória eterna.
- Cita-se o Profeta Davi e o Apóstolo para corroborar que nem mesmo o homem segundo o coração de Deus pode gloriar-se de seus méritos perante o juízo divino, pois "ninguém pode sair ao encontro de quem vem com vinte mil, com apenas dez mil".
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A plenitude da fé: Do conhecimento à confiança pelo testemunho do Espírito
- Adverte-se que crer na necessidade da misericórdia, do auxílio e da graça divina é apenas o princípio da fé, sendo necessário acrescentar a confiança ativa de que Deus realmente perdoa, concede méritos e confere o prêmio.
- Declara-se que é o Espírito Santo quem dá este testemunho interior no coração do crente, dizendo "Perdoados te foram os pecados", justificando-o graciosamente pela fé.
- Apresentam-se os argumentos poderosos que fundamentam esta confiança: a Paixão de Cristo, cujo sangue clama mais fortemente que o de Abel pela remissão dos pecados; a sua Ressurreição, para a nossa justificação; e a sua Ascensão, para a nossa glorificação.
- Identifica-se esta como a verdadeira glória que habita no homem, proveniente do Senhor que habita nos corações pela fé, em contraste com a glória vã que os filhos de Adão buscam uns dos outros.
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A realização da profecia: O encontro das virtudes na encarnação do Verbo
- Interpreta-se o versículo do Salmo como uma profecia da Encarnação: "Para que o Verbo se fizesse carne e habitasse entre nós, a misericórdia e a verdade mutuamente vieram encontrar-se, e deram-se o beijo a justiça e a paz".
- Propõe-se que o primeiro homem, Adão, foi originalmente revestido e adornado por estas quatro virtudes – Misericórdia, Verdade, Justiça e Paz – que constituíam o "vestido da salvação".
- Descreve-se a função de cada virtude no estado de inocência: a Misericórdia como aia e protetora; a Verdade como mestre que conduziria ao conhecimento da Suma Verdade; a Justiça como regra de vida; e a Paz como duplo repouso, sem guerra interior nem temor exterior.
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A queda e o despojamento: A perda das virtudes pelo pecado original
- Narra-se que o homem, ao descer de Jerusalém a Jericó e cair nas mãos dos ladrões (o pecado), foi despojado deste vestido de salvação.
- Especifica-se como cada virtude foi perdida: a Justiça, quando Adão e Eva preferiram obedecer à criatura em vez do Criador e não se arrependeram; a Misericórdia, quando não tiveram compaixão de si mesmos, do cônjuge ou da posteridade; a Verdade, quando torceram a palavra de Deus e creram na mentira da serpente; a Paz, quando experimentaram pela primeira vez o medo e a vergonha, perdendo a tranquilidade interior e exterior.
- Introduz-se a alegoria da túnica inconsútil de Cristo, interpretando-a como a imagem divina inata no homem, que não se perde, em contraste com a semelhança (as virtudes), que se perdeu com o pecado.
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O drama da redenção: O conflito e a reconciliação das virtudes no conselho divino
- Apresenta-se um drama alegórico no qual, após a queda, a Verdade e a Justiça afligiam o homem reclamando justiça, enquanto a Misericórdia e a Paz intercediam por ele perante o Pai.
- Descreve-se um grande conselho celestial, no qual a Misericórdia e a Verdade litigam perante o Pai e, posteriormente, perante o Filho (o Divino Salomão), cada uma apresentando suas razões: a Verdade, insiste em que a sentença de morte deve cumprir-se para que a palavra divina não pereça; a Misericórdia, clama que perecerá se não alcançar compaixão para o homem.
- Narra-se que o Juiz divino, o Filho, propõe uma solução sapiencial: "uma morte boa e santa" que satisfaça a ambas, mediante a qual o homem morra (satisfazendo a Verdade e a Justiça) e, ao mesmo tempo, alcance misericórdia.
- Explica-se que esta solução requer um inocente que, não devendo nada à morte, consinta em morrer voluntariamente pelo homem, atando o valente (o inferno) e abrindo um caminho através do mar do pecado.
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A encarnação e a obra de Cristo: A realização da reconciliação
- Relata-se que a busca por este inocente, realizada pela Verdade na terra e pela Misericórdia no céu, é infrutífera, não se encontrando ninguém imaculado e disposto ao sacrifício.
- Revela-se que o próprio Filho de Deus, movido por um amor imenso, Se oferece para realizar a obra, dizendo "Eis-me aqui, já venho" e "Não pode passar este cálice sem que eu o beba".
- Profetiza-se o anúncio da vinda do Rei pela boca do Anjo Gabriel à filha de Sião.
- Descreve-se a processão da vinda de Cristo: a Misericórdia e a Verdade adiantam-Se diante do seu rosto; a Justiça prepara-Lhe o trono; e a Paz O acompanha, cumprindo-se a profecia de que haveria paz na terra com a Sua vinda.
- Proclama-se que, com o nascimento de Cristo, a Justiça e a Paz, que antes discordavam, deram-se amigavelmente o beijo, estabelecendo uma reconciliação indissolúvel.
- Conclui-se exortando-se a amar e seguir a justiça com zelo, pois todo aquele que trouxer o testemunho da justiça (pela fé em Jesus Cristo) será recebido com alegria pela paz da bem-aventurança eterna.
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O fundamento da glória interior: O testemunho da consciência iluminada pelo Espírito Santo
Sobre as palavras do Salmo: Para que habite a glória em nossa terra, a misericórdia e a verdade mutuamente vieram a encontrar-se, e deram o beijo a justiça e a paz. (Ps. 84, 10 e 11.)
Para que habite a glória, em nossa terra, a misericórdia e a verdade mutuamente vieram a encontrar-se, e deram o beijo a justiça e a paz. A matéria de nosso regozijo, diz o Apóstolo, é o testemunho de nossa consciência. Não é este testemunho como o daquele Fariseu, que com um pensamento falso e enganoso falava a favor de si mesmo, não sendo seu testemunho verdadeiro: mas é o mesmo que dá o espírito de Deus a nosso espírito. Em três coisas, a meu parecer, consiste este testemunho. Porque, em primeiro lugar, deve-se crer que não se pode receber o perdão dos pecados, senão pela misericórdia de Deus: depois, que nada se pode fazer que seja bom, se igualmente não advém de sua mão: ultimamente, que com nenhuns méritos se pode conseguir a glória, se Ele mesmo não a concede graciosamente. Porque quem poderá tornar puro aquele que de impura semente foi concebido, senão o que só é limpo e puro? Na verdade o que está feito, não pode menos de ter sido feito, mas se Deus não o imputa, será como se não se tivesse feito. Isto considerava o Profeta, quando dizia: Ditosa o homem a quem Deus não imputou pecado algum. Quanto às boas obras, é certo que ninguém as pode fazer com suas próprias forças: porque se não soube manter-se firme nossa natureza estando sã, quanto menos poderá levantar-se por si mesma estando corrompida? Todas as coisas, no que está de parte delas, tendem a sua origem, e para ela se sentem constantemente inclinadas. Assim nós, que fomos criados do nada, é constante que, deixados a nós mesmos, nos inclinamos sempre para a nada do pecado.
Pelo que pertence à vida eterna, sabe-se que os trabalhos da vida presente não têm proporção com a glória que se há de manifestar em nós algum dia, nem ainda que um homem só os tolerasse todos. Nem são tais os méritos dos homens que por direito lhes seja devida a vida eterna; nem Deus, se não lhes a desse, lhes faria injúria. Porque, sem contar que todos os méritos dos homens são dons de Deus, e assim o homem por eles se torna mais devedor de Deus que Deus do homem; que são todos os méritos para glória tão grande? Enfim, quem é maior que o Profeta, de quem o mesmo Deus deu um testemunho tão insigne dizendo: Achei um homem segundo o meu coração? No entanto, ele também teve necessidade de dizer a Deus: Não entreis, Senhor, em juízo com vosso servo. Ninguém, pois, se engane, porque se o quiser ponderar bem, achará que nem com dez mil pode sair ao encontro a quem vem a ele com vinte mil.
Contudo não bastam inteiramente estas coisas de que se falou, mas antes se devem reputar como o princípio e fundamento de nossa fé. Portanto, se se crê que não podem ser apagados os pecados senão por aquele Senhor contra quem se pecou e em quem não cai pecado, bem se faz; mas se deve acrescentar a isto a confiança de que Ele perdoará os pecados. Este é o testemunho que dá no coração o Espírito Santo, dizendo: Perdoados te foram os pecados. Assim julga o Apóstolo que o homem se justifica graciosamente pela fé. Igualmente quanto aos méritos, se se crê que não se podem ter senão por Ele, não é bastante, até que o Espírito de verdade dê testemunho de que foram obtidos por Ele. E o mesmo deve ser dito acerca da vida eterna; é necessário que se tenha o testemunho do espírito de que se há de chegar a ela com o favor divino. Ele mesmo, pois, perdoa os pecados, dá os méritos, e depois confere os prêmios.
Estes testemunhos são dignos da maior fé. Porque acerca do perdão dos pecados é o mais poderoso argumento a Paixão de Cristo. A voz de seu sangue evidentemente é muito mais poderosa que a voz do sangue de Abel, clamando nos corações dos escolhidos pela remissão de todos os pecados, posto que por nossos pecados foi entregue. Nem há dúvida tampouco em que é mais poderosa e eficaz sua morte para o bem, que nossos pecados para o mal. Não é menos eficaz argumento para mim, quanto às boas obras, sua Ressurreição; porque ressuscitou para nossa justificação. A respeito da esperança do prêmio eterno é testemunho sua Ascensão, pois ascendeu para nossa glorificação. Estas três coisas estão consignadas nos Salmos, dizendo o Profeta: Ditosa o homem a quem o Senhor não imputou pecado algum. E em outra parte: Ditosa o homem que tem de vós o auxílio. E também: Ditosa aquele a quem escolhestes e tomastes a vosso serviço; ele habitará nos átrios de vossa casa. Esta é a glória verdadeira, esta a glória que mora em nós, porque advém daquele Senhor que habita em nossos corações pela fé. Mas os filhos de Adão buscando a glória uns dos outros, não queriam a glória que advém de só Deus; e assim ambicionando a glória que procede do exterior, tinham a glória não em si mesmos, mas antes em outros.
Deseja-se saber de onde o homem tem a glória que nele habita? Dir-se-á brevemente; porque a intenção leva ao sentido espiritual das palavras do Profeta: e ainda este só havia-se proposto investigar com algum cuidado; mas deixou-se ir ao moral com ocasião do texto do Apóstolo sobre a glória interior e testemunho da consciência, que saiu ao passo. Esta glória, pois, habitará também aqui em nossa terra, se a misericórdia e a verdade mutuamente se encontrarem, e se derem o beijo amistosamente a justiça e a paz. Assim é necessário que à misericórdia, que se antecipa e nos previne, saia a encontrá-la a verdade de nossa confissão, e no mais siga-se a santidade e a paz, sem as quais ninguém verá a Deus. Porque, quando o homem se compunge, já a misericórdia se adianta e o previne, mas de modo nenhum entrará nele até que a verdade da confissão lhe saia ao encontro. Pequei contra o Senhor, diz o mesmo Davi ao Profeta Natã ao ser repreendido de seu adultério e homicídio. Também o Senhor transferiu e perdoou teu pecado, lhe contesta o Profeta. Sem dúvida aqui se encontraram mutuamente a misericórdia e a verdade. E isto seja dito para que se aparte do mau. Mas para que se obre o bom, deve-se cantar acompanhado do tímpano e no coro, de sorte que a mortificação do corpo e os frutos da penitência e obras de justiça se façam em espírito de concórdia e unidade, porque esta unidade de espírito é o vínculo da perfeição: a mais disto, não se deve desviar à destra, nem à sinistra; porque há alguns cuja destra está cheia de maldade; como o estava a daquele Fariseu de quem mais acima se fez menção. Ele não era, a seu parecer, como os demais homens; mas dava a si mesmo, como se disse, uma aprovação e testemunho que não era verdadeiro. Mas qualquer que seja aquele em quem a misericórdia e a verdade se encontrarem mutuamente, e derem o beijo amistosamente a justiça e a paz, glorie-se sem temor nenhum: mas glorie-se naquele que lhe dá testemunho disto, que é o Espírito de verdade.
Para que habite a glória em nossa terra, a misericórdia e a verdade mutuamente se encontraram, e deram-se o beijo a justiça e a paz. Se a glória do Pai é o Filho sábio, não havendo outro mais sábio que a própria Sabedoria, é claro que é a glória do Pai, Cristo fortaleza de Deus e sabedoria de Deus. Pois, como de muitos e diversos modos se havia predito d’Ele nos Profetas que seria visto na terra e que viveria entre os homens, de que maneira isto se realizou, e se cumpriram as coisas que haviam sido preditas pelos Profetas, e como habitou a glória em nossa terra, o Profeta o indica com as palavras acima citadas. É como se dissesse mais claramente: para que o Verbo se fizesse carne e habitasse entre nós, a misericórdia e a verdade mutuamente vieram encontrar-se, e deram-se o beijo a justiça e a paz. Grande mistério, irmãos meus, e digno de ser considerado com a máxima diligência, se tivéssemos inteligência capaz de penetrar sua profundidade, e à própria inteligência não faltassem palavras. Todavia, direi o que alcanço, ainda que seja muito pouco; e com isto talvez darei ocasião ao sábio para que aprofunde mais este mistério. Parece-me que vejo, caríssimos, o primeiro homem, desde sua criação, revestido destas quatro virtudes, e adornado, segundo diz o Profeta, com o vestido da salvação. Pois a perfeição e integridade da salvação consistem nestas quatro virtudes, nem sem todas elas pode existir, especialmente não podendo ser virtudes estando separadas umas das outras. Recebera, pois, o homem a misericórdia como uma guarda e serva que devia ir diante dele e também segui-lo, e igualmente protegê-lo e ampará-lo em toda parte. Eis aí que aio pôs Deus ao seu menino e que pajem designou ao homem recém-nascido. Mas necessitava de um mestre, como criatura nobre e racional, que não devia ser guardada como uma besta, mas antes educada como um menino. Para este magistério nenhum era mais apropriado que a própria Verdade, que o conduziria depois ao conhecimento da Suma Verdade. Entretanto, para que o homem não fosse sábio para fazer o mal, e isto mesmo se lhe imputasse a pecado, como a quem sabia o bem e não o fazia, recebeu também a justiça para ser regido por ela. Ainda lhe acrescentou, pela mão benigníssima do Criador, a paz, na qual repousasse e se deleitasse: uma paz verdadeiramente duplicada, de modo que nem sentisse em seu interior guerra alguma, nem por fora temor algum; isto é, que nem sua carne combatesse contra o espírito, nem lhe infundisse terror alguma criatura. Assim também impôs ele livremente nome a todas as bestas; e a própria serpente não se atreveu a acometê-lo face a face, senão que o fez com fraude. Que faltava àquele que guardava a misericórdia, ensinava a verdade, regia a justiça e recreava-se na paz?
Mas ai! Este homem, por uma grande desventura e insensatez sua, desceu de Jerusalém a Jericó; caiu nas mãos dos ladrões; e, conforme lemos, a primeira coisa que fizeram foi despojá-lo de seus vestidos. Não estava despojado aquele que, vindo o Senhor, queixa-se de achar-se nu? Nem podia revestir-se novamente, ou retomar os vestidos que lhe haviam tirado, sem que Cristo perdesse os seus. Pois assim como não podia ser vivificado na alma senão intervindo a morte corporal de Cristo, assim também não podia revestir-se novamente sem que Cristo fosse despojado. E quem sabe se, para simbolizar estas quatro partes do vestido que perdeu o primeiro e velho homem, não foram divididas em outras tantas os vestidos do segundo e novo Homem? Perguntas talvez o que significa a túnica inconsútil que não se dividiu, mas foi dada por sorte? Julgo que nela se significa a imagem divina, que, não sendo cosida e ajustada, mas inata e impressa na própria natureza, não pode ser partida nem dividida. Pois à imagem e semelhança de Deus foi feito o homem; consistindo a imagem na liberdade de seu arbítrio, e a semelhança nas virtudes. A semelhança, sem dúvida, pereceu, mas a imagem durará enquanto durar o homem: no inferno mesmo poderá essa imagem queimar-se, mas não consumir-se; poderá abrasar-se, mas não apagar-se. A imagem, pois, não se divide, mas vem por sorte, e a qualquer parte que vá a alma, ali estará juntamente com ela. Não sucede o mesmo com a semelhança; pois ou permanece na virtude da alma, ou, se esta peca, se transforma miseravelmente, tornando-se então o homem semelhante às bestas irracionais.
Mas, pois dissemos que fora despojado o homem das quatro virtudes, convém que digamos de que modo foi despojado de cada uma. Perdeu o homem a justiça quando Eva obedeceu à voz da serpente, e Adão à voz da mulher, preferindo-a à divina. Restava ainda algum arbítrio que lhes podia valer; e isto mesmo lhes insinuava o Senhor naquele juízo e interrogação que lhes fez depois da culpa; mas o rejeitaram, deixando ir seu coração a palavras de malícia para alegar desculpas de seu pecado. O primeiro ofício da justiça é não pecar; o segundo é condenar o pecado pela penitência. Perdeu o homem a misericórdia quando de tal modo se deixou arrastar Eva por sua concupiscência, que nem teve compaixão de si mesma, nem de seu esposo, nem de seus filhos que haviam de nascer, entregando a todos juntos a uma terrível maldição e à necessidade da morte. Adão também expôs a mulher, por cuja causa havia pecado, à divina indignação, como querendo por trás dela evitar a seta da ira de Deus. Viu a mulher que o fruto daquela árvore era bom para comer e belo aos olhos e de aspecto deleitável, e deu ouvidos à serpente que lhe assegurava que seriam como deuses. Com dificuldade se rompe uma corda triplicada, de curiosidade, de deleite e de vaidade. Isto só possui o mundo: concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida. Encantada e atraída por estas coisas, lançou de si toda misericórdia esta mãe cruel. Adão também, que com tanta imprudência se havia compadecido antes da mulher para pecar em sua companhia, não quis ter dela misericórdia, quando o ditava a prudência, sofrendo por ela a pena. Foi igualmente privada a mulher da verdade, primeiramente torcendo e pervertendo o que havia ouvido: morrereis certamente, e dizendo: não seja acaso que morramos; depois, crendo na serpente, que inteiramente o negava e dizia: de nenhum modo morrereis. Do mesmo modo foi privado Adão da verdade, quando teve vergonha de a confessar, pondo-se a tecer as folhas, isto é, o véu de pretextos e desculpas; pois a própria Verdade disse: se alguém tiver vergonha de Mim diante dos homens, terei eu vergonha dele diante de meu Pai. Imediatamente também perderam a paz, porque não têm paz os ímpios, diz o Senhor. Porventura não encontraram em seus membros uma lei contrária à razão, os que pela primeira vez começaram a envergonhar-se de sua nudez? Tive medo, diz, porque estava nu. Não temias assim pouco antes, miserável, não temias assim: não buscavas as folhas, ainda que estavas nu no corpo como agora.
Desde então (para prosseguir a parábola do Profeta, que diz que a misericórdia e a verdade mutuamente vieram a encontrar-se e que se reconciliaram com o beijo da amizade), parece ter nascido uma grave contenda entre as virtudes. A verdade e a justiça afligiam o homem miserável; a paz e a misericórdia, não tomando parte nesse zelo, julgavam que mais conveniente seria perdoar-lhe. Estas duas têm entre si a ligação de irmãs de leite, assim como também as primeiras. Seguiu-se daí que, perseverando aquelas em pedir vingança e afligindo por todos os lados o homem delinquente, juntando às penas presentes as ameaças do futuro suplício, retiraram-se estas ao coração do Pai, voltando-se para o Senhor que as havia concedido ao homem. Desta forma, quando tudo se via cheio de aflição, só Ele meditava pensamentos de paz. Não encontrava repouso a paz, enquanto a misericórdia tampouco guardava um momento de silêncio, mas ambas se esforçavam por comover com piedoso murmúrio as entranhas paternais do Senhor, dizendo: Acaso Deus nos rejeitará para sempre, ou poderá resolver-se a não ser-nos jamais favorável? Esquecer-se-á Deus de exercer misericórdia, ou sua cólera deterá o curso de suas piedades? Ainda que por muito tempo parecesse que o Pai das misericórdias não se dava por entendido, a fim de satisfazer entretanto ao zelo da justiça e da verdade, contudo não foi infrutífera a importunidade das suplicantes, mas foram ouvidas em tempo oportuno.
Talvez se possa dizer que, instando elas, lhes deu esta resposta: Até quando durarão vossas súplicas? Sou devedor também a vossas irmãs, a Justiça e a Verdade, que vedes dispostas a executar vingança sobre as nações. Que sejam chamadas a conselho, venham, e conferiremos sobre este assunto. Apressam-se os mensageiros celestes em cumprir esta ordem, mas, ao verem a miséria dos homens e a cruel praga que os afligia, choravam amargamente, como diz o Profeta, os mensageiros da paz. Quem mais fielmente buscaria e rogaría pelo que conduz à paz, que os Anjos da paz? Posta de acordo com sua irmã, a Justiça, compareceu à reunião a Verdade no dia assinalado, mas subiu até as nuvens: ainda não brilhante, mas algo obscurecida e velada pelo zelo da indignação. Então sucedeu o que diz o Profeta: Senhor, no Céu está vossa misericórdia, e vossa verdade chega até as nuvens. Sentado entre ambas, o Pai das luzes, uma e outra alegavam os argumentos que julgavam mais convincentes. Quem te parece que mereceu assistir a esse colóquio, para poder dizer-nos o que se passou? Quem o ouviu e poderá contar-nos? Talvez sejam coisas inefáveis, e não seja permitido ao homem pronunciá-las. Todavia, a suma de toda a controvérsia parece ter sido esta: — Necessita de compaixão a criatura racional, diz a Misericórdia, porque se fez mísera e miserável em grande maneira. Chegou o tempo de compadecer-se dela, sem que seja possível adiá-lo. A isto replica a Verdade: Senhor, cumpra-se a palavra que pronunciaste. É necessário que Adão morra inteiramente com todos os que estavam com ele no dia em que, calcando vosso mandamento, comeu o fruto vedado. — Para quê, diz a Misericórdia, para quê, Pai, me gerastes, se tão presto hei de perecer? Sabe a própria Verdade que vossa piedade pereceria, ficando reduzida a nada, se jamais vos não compadecêsseis das misérias do homem. Insiste por sua vez a Verdade, dizendo resolutamente: Quem ignora, Senhor, que, se o transgressor evita a sentença de morte que está promulgada contra ele, perecerá para sempre vossa verdade e não durará eternamente?
Eis, porém, que um dos querubins sugere que ambas as litigantes compareçam diante do Divino Salomão; pois ao Filho se confiou toda a potestade de julgar. Assim se fez, com efeito: reuniram-se na presença do Filho divino, a Misericórdia e a Verdade, alegando cada qual em seu favor as razões antes indicadas. Confesso, diz a Verdade, que a Misericórdia tem bom zelo, mas oxalá fosse ele regulado pela prudência. Mas agora, com que razão julga que se deva perdoar mais facilmente ao transgressor, do que atender-me a mim, que sou sua própria irmã? E tu, replica-lhe a Misericórdia, nem a um nem a outra perdoas, mas te inflamas de tal indignação contra o transgressor, que envolves nela também tua irmã. Que mal te fiz eu? Se tens algo contra mim, dize-o; e se não, por que me persegues? Grande controvérsia, irmãos meus, e disputa sobremaneira intrincada! Quem não diria então: melhor seria para nós que este homem não tivesse nascido? Assim era, caríssimos, assim era: não parecia possível que, quanto à salvação do homem, pudessem chegar a um acordo mútuo a Misericórdia e a Verdade, tanto mais quanto esta, dirigindo-se ao Juiz, fazia-lhe notar que o agravo de que era vítima redundaria em detrimento do próprio Juiz; e insistia em que, a todo custo, era necessário que a palavra de seu Pai não ficasse frustrada, e que por nenhum pretexto devia tornar-se letra morta aquela palavra viva e eficaz. Nisto interveio a Paz, dizendo: deixai, rogo-vos, as discussões; cesse vosso altercado, pois é indecoroso que contendam entre si as virtudes.
Entretanto, inclinando-se o Juiz, com o dedo escrevia sobre a terra. As palavras daquela Escritura, que a Paz ia lendo em alta voz à medida que Ele as traçava, por estar sentada mais próxima d’Ele, eram estas: A Verdade diz: perecerei eu, se não se executar a sentença dada contra Adão. E a Misericórdia replica: estou perdida, se não alcançar que dele se compadeçam. Pois bem, estabeleçamos uma morte boa e santa, com a qual uma e outra terão obtido o que pedem. Todos se pasmaram ao ouvir as palavras da Sabedoria, ao escutarem aquele juízo que era ao mesmo tempo composição e sentença; pois era manifesto que não lhes deixava ocasião alguma de queixa, contanto que se pudesse realizar o que uma e outra pretendiam: isto é, que o homem morresse e, juntamente, alcançasse misericórdia. Mas como, dizem ambas, poderá isto realizar-se? A morte é cruíssima e amarguíssima; a morte inspira aos próprios ouvidos susto e horror. De que modo poderá tornar-se boa? A morte, diz o Juiz, dos pecadores é péssima, mas a morte dos Santos pode tornar-se preciosa. Porventura não será preciosa, se for a porta da vida e a entrada da glória? Sim, respondem, preciosa será então; mas como se fará isto? Assim será, prossegue o Juiz, se encontrarmos alguém que, sem dever nada à morte, consinta em morrer por amor ao homem; porque não poderá a morte prender o inocente, senão que este, como está escrito, traspassará com um anzol as queixadas do infernal Leviatã; e então será derribado o centro da muralha, e se encherá o caos imenso cavado pelo pecado entre a morte e a vida. Sem dúvida, o amor, forte como a morte, e ainda mais forte que a morte, se penetrar no átrio daquele valente armado, há de atar-lhe as mãos e saquear-lhe todos os despojos, e, ao penetrar, abrirá caminho no profundo mar do pecado, a fim de que possam passar após ele os que por ele tiverem sido libertados.
Parece boa a proposta, como sendo fiel e digna de toda aceitação. Mas onde encontrar esse ser inocente e imaculado que se disponha a morrer, não para solver dívida própria, mas por pura liberalidade; não por merecimento, mas por beneplácito? Sai logo a Verdade a percorrer todo o orbe, e não encontra ninguém totalmente livre de mancha, nem mesmo a criança cuja vida tem apenas um dia sobre a terra. A Misericórdia, por sua vez, examina todo o Céu, e até nos próprios Anjos encontra, não direi maldade, mas uma caridade menor que a que se busca. Sem dúvida, essa vitória estava reservada para aquele Senhor cuja caridade foi a maior de todas, pois deu sua vida por servos inúteis e indignos. Porque, embora Ele já não nos chame servos, isto mesmo é efeito de um amor imenso e de uma insigne dignação. Mas nós, ainda que cumpríssemos inteiramente tudo quanto nos foi mandado, que outra coisa deveríamos dizer senão que somos servos inúteis? Mas quem ousaria propor-lhe tal coisa? Voltaram, no dia assinalado, a Verdade e a Misericórdia, muito aflitas por não haverem encontrado o que tanto desejavam.
Então a Paz as chama à parte e procura consolá-las, dizendo-lhes: não compreendeis palavra alguma acerca deste assunto, e é inútil que vos afadigueis; porque não há ninguém, absolutamente ninguém, que possa realizar tal façanha. Somente Aquele que indicou o remédio é capaz de aplicá-lo. Entendeu o Rei o que ela queria significar com isto e disse: Arrependo-me de ter feito o homem. Tenho pena, diz Ele; pois a mim me toca suportar a pena e fazer penitência pelo homem que criei. Mas logo acrescentou: Eis-me aqui, já venho; não pode passar este cálice sem que eu o beba. E chamando em seguida o Anjo Gabriel: vai, disse-lhe, dize à filha de Sião: Eis que vem o teu Rei. Apressou-se o Anjo a cumprir esta ordem e disse à filha de Sião: ó filha de Sião, prepara teu tálamo para receber nele o teu Rei. Adiantaram-se ao Rei que havia de vir a Misericórdia e a Verdade, como está escrito: a misericórdia e a verdade irão diante de vosso rosto. A Justiça preparou-lhe o trono, segundo o Profeta que diz: a justiça e o juízo são a preparação de vosso trono. A Paz veio em companhia do Rei, para que se visse que fora fiel o Profeta que dissera: haverá paz em nossa terra quando Ele vier. Daí que, havendo nascido o Senhor, cantava o coro dos Anjos: paz na terra aos homens de boa vontade. Então a Justiça e a Paz, que pareciam discordar entre si, deram-se amigavelmente o beijo. Com efeito, a primeira justiça (se é que merece tal nome), que procedia da lei, não trazia nos lábios o doce beijo, mas antes um aguilhão, oprimindo mais pelo temor que atraindo pelo amor. Por isso não teve eficácia para a reconciliação, como a tem agora a presente justiça, que vem pela fé em Jesus Cristo. Pois de onde provinha que nem Abraão, nem Moisés, nem os demais justos daquele tempo podiam receber em sua morte a paz da bem-aventurança, nem entrar no reino da paz, senão de que ainda a justiça e a paz não se haviam dado o ósculo da reconciliação? Por isso, caríssimos, devemos amar e seguir a justiça com o mais fervoroso zelo, pois a justiça e a paz já se deram o ósculo da reconciliação e estabeleceram entre si um pacto indissolúvel de amizade: de modo que todo aquele que trouxer consigo o testemunho da justiça será recebido com rosto aprazível e alegres abraços pela paz, dormindo e repousando suavemente em seu regaço.